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A assertividade do NÃO SEI na liderança

“A resposta de uma simples pergunta pode definir que tipo de profissional você é ou será...”


Um dia desses, recebi um *email engraçadinho, aparentemente sem qualquer profundidade, mas que me fez refletir sobre algumas atitudes que rotineiramente observo em minha realidade profissional. A mensagem era mais ou menos assim:

 

“Se você não sabe qual é sua verdadeira vocação, imagine a seguinte cena: Você está olhando para a janela, não há nada de especial no céu, apenas algumas nuvens aqui e ali. Então chega alguém, que também não tem nada para fazer, e pergunta: será que vai chover hoje?”

A partir daí, uma sucessão de possíveis perfis profissionais iam despontando conforme a resposta escolhida:
1 - “Se a pessoa respondesse ‘com certeza’, certamente seria vendedor, pois a área de vendas é a única que tem certeza de tudo”.
2 - “Se a resposta fosse ‘Ah... a meteorologia diz que não’, você será da área de contabilidade porque esse pessoal sempre confia mais nos dados do que nos próprios olhos”.
3 - “Se falasse ‘depende’, sem dúvidas você nasceu para recursos humanos, uma área que qualquer fato sempre estará na dependência de outros fatos”.


E por aí seguia a história. Mas a ideia que me intrigou a reflexão, que era justamente o propósito do email, era a última resposta, aquela tida como a mais rara, principalmente no mundo corporativo: o “Não sei”. Contrariamente ao senso comum, o perfil profissional que acompanhava a resposta era: “Se você responder ‘Não sei’, há uma boa chance que você tenha uma carreira de sucesso e acabe chegando à diretoria da empresa”.

Brincadeiras e generalizações à parte, a verdade é que o “Não sei” se revelou um tópico interessante sobre o qual poderíamos (e deveríamos) pensar. Isso porque, sobretudo no mundo dos negócios, estamos acostumados à valorização da assertividade, ou seja, do fato de responder com convicção e objetividade, de forma a transmitir segurança e eficiência às pessoas e situações à nossa volta. No entanto, essa valorização da assertividade está sempre ligada à firmeza do “sim” ou do “não”; o “não sei” costuma sempre carregar o fardo negativo da indecisão e da insegurança e, talvez por isso, estejamos tão costumados a passar longe dele.

Na maioria das vezes, na ânsia de sermos úteis e com medo de perder nosso precioso tempo, preferimos responder imediatamente, mesmo que não tenhamos certeza absoluta do que estamos falando. Normalmente o tempo de reflexão, imprescindível para se planejar adequadamente e evitar possíveis conseqüências, é relegado a segundo plano e substituído pela necessidade de passar uma inabalável imagem de segurança. A palavra de ordem no mundo corporativo, e me parece que em quase tudo a nossa volta atualmente, é imediatismo e eficiência.

Afastadas todas as possíveis e tão exploradas cargas negativas que costumam rondar o “não sei”, a questão que se impõe é: o que impede o “não sei” de ser encarado como uma posição de firmeza? Afinal, ‘não saber’ nem sempre é sinônimo de falta de interesse ou estupidez. ‘Não saber’ reflete, além de uma atitude de humildade, um corajoso senso de responsabilidade diante das situações o que, por sua vez, não me surpreende ter sido uma característica atribuída a um cargo de liderança e sucesso no email que mencionei no início.

Em meio a tantas promessas em torno da excessiva valorização da rapidez e da eficiência, diria que é no mínimo louvável encontrar alguém prudente o suficiente para afirmar com sinceridade não saber sobre algo. Assim como o medo e a cautela que são importantes para nos proteger, reservar um tempo para refletir sobre algo que não sabemos nos ajuda a evitar erros e sofrimentos, na medida em que meditamos sobre as possíveis consequências de nossos atos e decidimos não agir por impulsividade.

Vale lembrar ainda que, ainda mais importante do que passar uma imagem de eficiência, é ter credibilidade para sustentá-la realmente. E isso só será possível àqueles que possuem a coragem de assumir que não sabem tudo a todo o momento; àqueles que são, simplesmente, responsáveis. Ao final, percebo que a segurança e a firmeza da assertividade podem, paradoxalmente, ser muito mais reais e sólidas quando expressas por um aparente indeciso, mas seguramente sincero, “não sei”.

* O texto do email citado é de autoria de Antonio Ermírio de Morais, explorado certa vez pela Revista Exame.

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